Ensaio: encontros & desencontros

João amava Teresa

que amava Raimundo

que amava Maria

que amava Joaquim

que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos,

Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se

e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

(Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade)

Este poema de Drummond sintetiza de forma magistral os encontros e desencontros que fazem parte da vida – processos que também manifestam-se dentro do grupo retratado no livro de Maria Adelaide Amaral, Aos Meus Amigos (editado em 1992 e recentemente relançado pela Editora Globo): velhos amigos reúnem-se, após um grande tempo sem se verem – separados pela vida e pelas vivências de cada um -, tendo como agente desencadeador da reunião o suicídio de um amigo comum. Se bem que tal argumento, empregado no romance, havia sido anteriormente explorado no filme The Big Chill (no Brasil, sob o título O Reencontro), de 1983, dirigido por Lawrence Kasdan e estrelado por Glenn Close, William Hurt e Jeff Goldblum, entre outros.

A partir daí, a narrativa desenvolve-se em torno dos confrontos, encontros e desencontros experimentados pelo grupo, cada qual com suas idiossincrasias, inquietações, antigos ideais de juventude transformados (ou destruídos), desilusões e angústias existenciais àquela altura de suas vidas entradas na maturidade, tendo como elemento identificador comum o fato de pertencerem a uma determinada geração – no caso, a dos anos 60, época caracterizada por grandes transformações sócio-político-culturais, no Brasil e em várias partes do mundo, principalmente EUA e Europa.

E, onipresente a tudo, talvez o grande desencontro entre todos os personagens do romance: a paixão, nunca resolvida, entre Léo (o suicida) e Lena.

O título do livro é claro, neste sentido: trata-se de um livro dirigido e dedicado, pela autora, aos seus amigos – ou pelo menos às pessoas que vivenciaram e de alguma forma identificam-se nos dilemas e conflitos da geração em questão; se bem que, mesmo não necessariamente pertencendo-se a ela, o teor existencial da mensagem contida no livro ainda vale.

Por outro lado, estas tratam-se de sagas que talvez só sejam plenamente compreendidas por quem já passou dos 30 anos em diante – faixas etárias da idade adulta, da maturidade, nas quais, de uma forma ou de outra, acumulam-se vivências suficientes para uma compreensão satisfatória dos intrincados mecanismos dos relacionamentos humanos, bem como das voltas e reviravoltas que a vida dá (processos que dificilmente seriam plenamente compreendidos por um adolescente ou alguém nos seus vinte e poucos).

Li o livro de Maria Adelaide Amaral à época em que foi lançado e, desde então, surpreendo-me relendo-o várias vezes; simplesmente por identificar-me (em maior ou menor intensidade, conforme o caso) com alguns daqueles personagens, os quais inspirados no próprio círculo de amizades da autora (incluída a própria) – sob nomes e biografia forjados, e ideias rigorosamente verdadeiras. E, para todos os efeitos, pela experiência de vida que vai sendo acumulada através dos anos, é impossível não identificar algum dos desencontros e conflitos existenciais vividos por aquela gente em nós: eu, você, pessoas próximas… Tanto no poema de Drummond quanto no livro. Ou mesmo no filme.

copyright © 2007 Iracema Brochado

colagem / collage

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