editorial (republico)

Reproduzo abaixo o texto de um editorial (sem título) publicado no periódico bimensal brasiliense Música Em Brasília, edição de julho-agosto de 2005. Trata-se de outro artigo guardado em meus arquivos pessoais e julguei interessante repassá-lo aqui, como um tópico de discussão sobre uma das facetas da produção cultural brasileira e a realidade por ela vivida: a música erudita nacional (yes, nós temos uma produção em música erudita – e Carlos Gomes e Villalobos não foram os únicos).


O editorial é da autoria de Bohumil Med, músico clássico (trompista) de origem tcheca, radicado no Brasil desde 1968. No Rio de Janeiro, atuou na Orquestra Sinfônica Brasileira, tendo também dado aulas no Instituto Villa-Lobos. Desde 1974 professor da Universidade de Brasília, inicialmente como trompista, ocupa atualmente a cadeira de professor de Teoria da Música e Percepção Musical. Várias vezes condecorado, publicou quatro livros, com destaque para Teoria da Música.


Vida de Músico não é Fácil é seu último lançamento (2004). (Ver trechos do livro neste link)


Segue o texto do editorial. Como no texto anterior, eventuais links foram por mim acrescentados.

O governo brasileiro está promovendo com pompas e recursos o “Ano do Brasil na França“. Analisando a programação oficial constatamos, com muita tristeza, que a música erudita brasileira foi totalmente alijada. Para os organizadores, o país não tem o que mostrar no exterior. Na concepção deles, não existem valores representativos. Nem compositores, nem intérpretes. O público francês vai pensar que a cultura musical brasileira se restringe, com raras exceções, às mulatas das escolas de samba, à música folclórica e popular. (*)

A imagem que o próprio Brasil projeta no exterior já não é das melhores. Filmes como Cidade de Deus, Carandiru e outros, embora de qualidade, só mostram o lado negativo. As manchetes internacionais, quando se referem ao Brasil, só falam sobre o desmatamento da Amazônia, as favelas, a violência, o tráfico de drogas, a corrupção no governo, o turismo sexual e, caso raro do que é bonito, o futebol brasileiro. E quando há uma oportunidade de mostrar um dos lados cultos e positivos, no qual, sem a menor dúvida, a música erudita brasileira se enquadra, os organizadores a desprezam! Não dá para entender!!

O pior é que essa postura não é exclusividade desse projeto. No Brasil, a música erudita é a prima pobre e praticamente desconhecida da música popular, e seria totalmente ignorada pelos nossos meios de comunicação, não fossem a Rádio Cultura FM 103.3 de São Paulo e a TV Senado, com os programas Artur da Távola, Conversa de Músico e outros poucos. Na mídia impressa, só existem duas publicações de porte que tratam do tema: as revistas Concerto, de São Paulo, e Brasiliana, da Academia Brasileira de Música. Os jornais diários, especialmente em Brasília, dedicam espaço reduzido, quando dedicam!

Pergunta que não quer calar: por que tanto descaso? É um boicote nacional?? A quem se deve essa postura? À política cultural dos governos federal, estadual e municipal? Aos programadores das rádios e TVs? Aos redatores dos jornais e revistas? Aos responsáveis pela liberação das verbas e sua deficiente formação cultural? Ou a todos eles ao mesmo tempo? Alguém imagina uma solução? Por favor, apresente o mais rápido possível. A cultura brasileira agradece.

(*) Em O Selvagem da Ópera (1994), Rubem Fonseca observa que, até o momento da publicação de sua biografia romanceada sobre Carlos Gomes, nenhuma ópera do compositor havia sido encenada na França [nota da blogueira].

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