Ilha SEM fantasia

[Originalmente redigido como trabalho de faculdade de Jornalismo, posteriormente adaptado e postado no portal MULTARTE Arte e Cultura Brasileira em 2002, republico aqui este texto de minha autoria, sobre o curta “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado]

Ilha sem fantasia

ILHA DAS FLORES, realizado por estudantes gaúchos de cinema em 1989, demonstra que é possível a criatividade com poucos recursos.

Trata-se de um premiado e festejado curta que, com uma produção modesta, constrói uma narrativa extremamente instigante no tocante ao seu conteúdo. Exatamente por isso, é uma demonstração (dentre as muitas que têm aparecido no recente cenário artístico) das mais eloquentes de como, sem recorrer a produções de porte faraônico-hollywoodiano, uma obra de arte pode ser tão bem elaborada no plano técnico e ao mesmo tempo comunicativa, sem hermetismos eruditos ou malabarismos virtuosísticos. Enfim, algo para ser entendido – e curtido.

Disponível também em versões legendadas para o inglês, francês, alemão e espanhol, ILHA DAS FLORES é uma verdadeira parábola sobre a condição humana – ou pelo menos uma de suas facetas: a de como a ausência de liberdade (i.e. a outorga ao indivíduo em particular e à sociedade em geral o direito de ir e vir, bem como o direito a uma vida em condições dignas) pode levar gente a se sujeitar a situações aviltantes em troca de uma sobrevivência quase ou totalmente vegetativa. De como o ser humano, na eterna luta pela sobrevivência, trata de se contentar com qualquer coisa ao seu alcance – até mesmo LIXO.

No plano técnico, a narrativa apresenta-se com um estilo que poderia assim ser chamado de: “irônico-didático”, com generosas doses de metalinguagem, ao “explicar” cada um dos componentes apresentados em seu desenrolar; há também características de documentário em algumas passagens, tanto que este curta costuma ser genericamente denominado como “documentário” pelos meios afora. Da aparente miscelânea nonsense, entre conteúdo e partes nele envolvidas (incluindo personagens de carne e osso), vai-se gradativamente fazendo surgir uma ideia comum: a de como a sociedade de fato, mesmo não se conhecendo os indivíduos, encontra-se envolvida em uma mesma questão – a do direito a uma existência digna.

Há na obra uma intensa relação sonoridade-imagem, com elementos repetitivos e encadeados entre si, em um continuum – ou seria talvez “crescendo social?” – que leva ao desfecho da reflexão final sobre a condição humana, via Cecília Meireles (“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”). Apesar dos momentos jocosos, hilariantes até, a narrativa vai gradativamente conduzindo o espectador a uma conclusão final, que é séria. E tudo isto em apenas 12 minutos de duração.

Apesar das técnicas empregadas nesta película serem de uso corriqueiro em productions do tipo Walt Disney, ILHA DAS FLORES (que bem poderia servir de título a uma produção desse porte) pode ser considerado como um magnífico ANTI-DISNEY… Sem a costumeira pieguice que assola tais produções. Um verdadeiro colírio artístico para aqueles que, como eu, acreditam que bom cinema não depende de grandiloquências hollywoodianas para tornar uma obra perene: a velha fórmula da “câmera na mão e uma ideia na cabeça” ainda funciona.

Iracema Brochado

Brasília, DF, 15/03/2002


ILHA DAS FLORES [Ficha técnica]
Brasil, 1989 (35 mm, 12 minutos, cor)

Direção: Jorge Furtado
Produção executiva: Monica Schimiedt, Giba Assis Brasil e Nora Goulart
Roteiro: Jorge Furtado
Direção de fotografia: Roberto Henkin e Sérgio Amon
Direção de arte: Fiapo Barth
Música: Geraldo Flach
Direção de produção: Nora Goulart
Montagem: Giba Assis Brasil
Assistente de direção: Ana Luiza Azevedo
Uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre
Elenco principal: Paulo José (narração) e Ciça Reckziegel (Dona Anete)

Sinal dos tempos (alegoria) #instant #artesvisuais #artenasruas #cenaurbana

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entrevista: Fagner

Nesta entrevista, publicada na edição de nº 1928 da revista VEJA (26/10/2005), o cantor Raimundo Fagner – ou simplesmente Fagner, como é conhecido no Brasil – demonstra uma atitude um tanto rara (problemática geral, no mundo inteiro – por favor, nada de supervalorizar-nos com aquela lenga-lenga terceiro-mundista do tipo “isto-só-acontece-no-nosso-país”) no meio artístico: a AUTOCRÍTICA. Por experiência própria, já havia constatado que, por trás de toda aquela atitude ‘benemerente’ e ‘liberal’ não se escondem mais do que coisas como hedonismo rasteiro, niilismo medíocre, jingoísmo troglodita ou desejo simplesmente egoísta de autopromoção… Ou tudo isso, junto. Até quando, só o Deus de cada um sabe; talvez nunca.

“COMIGO É NO TAPA”
(Entrevista concedida a Juliana Linhares)

Independente, rebelde e briguento, o cantor Fagner diz que os artistas brasileiros se dobraram à ditadura do “politicamente correto”.

“Fiquei louco com aqueles artistas posando de anjinhos ao lado do SIM*. Eles tinham de pôr a cara na TV para cobrar o Lula”


Em Fortaleza, onde voltou a morar no ano passado, ele é “dom Fagner”. Dono de pontos de vista polêmicos e de uma carreira que já dura mais de trinta anos, o cantor Raimundo Fagner, de 56 anos, vive com a casa cheia. “É um entra-e-sai danado. É gente precisando de dinheiro, querendo ajuda, pedindo conselho, uma loucura.” O último item, sobretudo, ele distribui generosamente. Dá palpites na vida da senadora Patrícia Gomes, do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do ministro Ciro Gomes e do senador e ex-governador Tasso Jereissati – todos seus amigos há décadas. Assim como sua voz, que no início da carreira um crítico disse ser de “taquara rachada”, as opiniões de Fagner nem sempre soam doces aos ouvidos do meio artístico. Nesta entrevista, o cantor – cujo mais recente CD, Donos do Brasil, foi indicado ao Grammy Latino – acusa os colegas de se omitirem diante da crise do governo que ajudaram a eleger, critica a obsessão dos artistas pelas opiniões “politicamente corretas” e diz que Lula só não sofreu impeachment até agora por incompetência da oposição.

Veja – Recentemente, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o senhor criticou os artistas que apóiam publicamente o desarmamento dizendo que são todos “maria-vai-com-as-outras”. O que quis dizer com isso?
Fagner – Quis dizer que artistas costumam agir em bando, só seguindo a manada. Querem sempre ser “bonzinhos”, “de esquerda”, “do bem” – e, muitas vezes, nem refletem sobre o que estão dizendo. Esse referendo sobre o desarmamento – que eu acho, antes de tudo, inoportuno – é um exemplo. Tenho certeza de que muitos atores e cantores são contra o desarmamento. Mas você acha que eles têm coragem de ir à TV dizer isso? Têm medo de parecer politicamente incorretos. Fiquei louco quando vi aquele monte de artistas posando de anjinhos ao lado do SIM. Eles deveriam era botar a cara na televisão para exigir explicações do presidente. Afinal, foram eles que colocaram o Lula lá. Só que, agora, não têm coragem de vir a público dizer que estão decepcionados com ele.

Veja – E por que não teriam essa coragem?
Fagner – Porque artista é vaidoso demais para dizer que errou. [Grifo da blogueira] O resultado é este: fica o presidente de um lado, dizendo que não sabia de nada, e os artistas, que o elegeram, de outro, sem acreditar nessa balela, mas sem peito para botar a boca no trombone.

Veja – De quem o senhor está falando?
Fagner – De Gilberto Gil, que está lá, junto de Lula. De Caetano Veloso, que está calado. De Chico Buarque, que só declarou que está triste. O que se passa na cabeça de uma Fernanda Montenegro, que não diz nada numa hora dessas? A vida toda eu apoiei, no Ceará, o [hoje ministro] Ciro Gomes e o [hoje senador] Tasso Jereissati. Se um dia aparecer alguma ladroagem de um dos dois, eu vou ser o primeiro a falar.

Veja – De que forma esses artistas deveriam se manifestar, na sua opinião?
Fagner – Você já imaginou o impacto que poderia ter uma carta pública de Chico Buarque para o presidente Lula? E já imaginou se o Zezé Di Camargo falasse alguma coisa? Mas ele não fala. Está sem tempo e também tem umas dívidas para receber do PT. No lugar deles, vem essa filósofa, Marilena Chauí, defender o indefensável. Assisti a uma entrevista dela outro dia. Durante duas horas ela ficou nesse negócio de “filosoficamente falando”. Parecia que no dicionário dela não existia a palavra “corrupção”. E fica um bando de abestados achando ótimo o que ela diz.

Veja – O senhor disse que admira Caetano Veloso, mas já teve diversas brigas com ele que se tornaram públicas. Qual a razão desses desentendimentos?
Fagner – Tem uma história que diz que baiano não “nasce”, baiano “estréia”. E Caetano tem um problema de ego: quer sempre aparecer. Quando não tem assunto, vai à mídia e diz que é melhor que o Chico Buarque e o Milton Nascimento juntos.

Veja – E por que vocês brigam?
Fagner – A primeira briga que tive com Caetano foi logo quando cheguei do Ceará. Ele convidou a mim e a outros artistas para irmos a sua casa, no Rio de Janeiro. Eu era um novato na turma, nem tinha gravado nada ainda, acho que era no comecinho dos anos 70. Começaram a pedir que ele cantasse. Ele não quis, disse que estava cansado. Eu, então, peguei meu violão e cantei. Todo mundo adorou, menos Caetano, que fechou a cara. Tempos depois, eu estava conversando com Nara Leão quando ele chegou e se pôs de costas para mim. Nunca mais pisei na casa dele.

Veja – Não foi a única briga de vocês…
Fagner – Teve outra. Eu morava no Rio e era começo dos anos 80. Estávamos eu, Roberto Carlos e ele preparando uma canção para o “Nordeste já”. Foi uma mobilização de artistas para angariar fundos para o Nordeste, que havia passado por uma seca enorme. O Roberto, com aquele jeito apaziguador, começou a falar como era legal o fato de eu e Caetano estarmos juntos, depois de brigarmos tanto. Daí, o Caetano foi se lembrando das brigas e se zangando. Eu sabia que ele estava com fome e fui para a cozinha fazer alguma coisa para ele comer. Mas na minha geladeira só tinha um ovo. Fiz o ovo e vinha vindo com ele para dar a Caetano, mas ele continuou falando, falando, querendo confusão. Bom, terminei entrando no pau e jogando o ovo de Caetano no chão. Ele sabe que, comigo, é no tapa. Mas digo: sou doido por Caetano.

Veja – Durante um certo tempo, o senhor foi criticado por não ter se engajado na luta contra o regime militar, ao contrário de artistas como Caetano.
Fagner – Eu era um alienado mesmo. Gostava de ouvir Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Altemar Dutra. Nunca tive embasamento intelectual para fazer música de protesto e não estava interessado em política. Em 1967, quando morreu (o ex-presidente] Castello Branco, que era de Fortaleza, o Ceará ficou de luto. Mas eu e meus amigos nem tínhamos tomado conhecimento da morte dele. Na noite do acidente, fomos fazer uma serenata na porta de um colega que havia passado no vestibular. No meio da cantoria, passou um camburão do Exército e os soldados começaram a atirar. Quando viram que éramos uns imbecis, que não tínhamos a menor idéia do que estava se passando, foram embora e nos deixaram em paz. Eu estava em outro mundo.

Veja – Hoje, como o senhor avalia o governo Lula e a crise pela qual ele está passando?
Fagner – Lula está muito prepotente. Parece que está vendo outro filme e se lixando para a opinião das pessoas. O país está agonizando e ele se nega a assumir a sua responsabilidade. Quem é que manda no Delúbio Soares? No Silvio Pereira? No José Dirceu? É o Lula! Ele só não sofreu impeachment até agora porque a direita brasileira ainda não sabe ser oposição. Sempre tive uma relação especial com o Lula, porque ele era muito ligado ao meu pai e porque, assim como milhões de brasileiros, eu respeitava e respeito a história de vida dele. Mas isso não me impede de falar que ele tem satisfações a dar.

Veja – Como seu pai conheceu o presidente Lula?
Fagner – No fim dos anos 70, eu vim fazer um show em São Paulo e meu pai veio junto. Lula foi ao show e pediu para me conhecer. Ele e meu pai conversaram muito nesse dia. Fiquei em São Paulo por mais uma semana e Lula e meu pai não se desgrudaram. Ele levou meu pai para conhecer as fábricas, mostrava para todo mundo quem era o “pai do Fagner”, apresentou-lhe os seus amigos do sindicalismo… Durante uma semana, Lula chegava ao hotel onde estávamos hospedados e ia direto para o nosso quarto tomar café conosco. Não sei por que eles se identificaram tanto. Só sei que até hoje, quando encontro Lula, ele fala de meu pai.

Veja – O seu pai era libanês. Como ele chegou ao Ceará?
Fagner – Foi nos anos 40, fugindo de guerras no Oriente Médio. Ele deve ter sofrido muito porque vivia tendo pesadelos com o Líbano. A minha infância inteira foi marcada pelos pesadelos de meu pai: ele acordava gritando, sonhando com guerra. Era uma confusão em casa, todos correndo para acudi-lo, para dar-lhe água. Muitos libaneses vieram para o Nordeste naquela época. Sem falar uma palavra em português, meu pai comprou um cavalo e passou não sei quantos dias viajando por cidadezinhas do interior do estado vendendo tecidos que ele havia trazido do Líbano. Teve seis filhos com a minha mãe, que também tem uma voz linda. Na minha casa, sempre foi uma cantoria só. Todo mundo na cozinha, tocando violão e fazendo música. A minha mãe, que está com 94 anos, até hoje não tem um fio de cabelo branco.

Veja – O senhor, aos 56 anos, também não tem. E está magro e em forma. Cuida-se muito?
Fagner – O cabelo eu pinto. Sou magro porque como pouco, fumo muito e jogo futebol feito um doido. Faço parte de times de futebol em todo canto aonde eu vou. Quando eu era moleque, adorava futebol, mas era desnutrido, raquítico e não tinha força para jogar. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, na década de 70, fui morar com o Afonsinho, um excelente jogador. Comecei a comer, a tomar ares e a conviver com grandes jogadores, como Pelé e Rivelino. A paixão pelo futebol, então, explodiu. Montamos até um time, que se chamava Trem da Alegria. Faziam parte dele Paulinho da Viola, Rivelino e Gonzaguinha. O time acabou quando viemos jogar contra um time da USP. Tínhamos tomado um porre tão grande de cerveja e cachaça que ninguém conseguia correr. A gente ficava se trombando e caindo pelo campo, uma vergonha.

Veja – Em que posição o senhor joga?
Fagner – Centroavante e ponta-esquerda. Meu negócio é finalizar. Tenho dois campos de futebol no Ceará, mas gosto mesmo é de jogar no campo do Zico, no Rio. O problema é que o Zico é muito bravo. Há trinta anos que eu jogo com ele e tomo bronca e tapa na cara em toda partida. Mas ele tem é inveja de mim, porque eu sempre sou o artilheiro.

Veja – O senhor também já brigou muito com a Rede Globo. Quais foram os motivos?
Fagner – Eu tive duas grandes brigas com diretores da Globo na década de 80. Uma delas foi porque eles fizeram um especial sobre o Luiz Gonzaga e não queriam botar artistas nordestinos para cantar. Quando soube que era um dos únicos nordestinos escalados, fiquei furioso, briguei com todo mundo. Em outro episódio, eles estavam gravando uma novela no Ceará, Final Feliz, e, em vez de colocar uma trilha sonora nordestina, enfiaram uma música caribenha. Esperneei, briguei, virei o cão lá dentro. Por causa disso, eles me deram um gelo de vários anos. Fiquei um tempão sem ter música em novela. Mas isso já passou. Recentemente, emendei três músicas em novelas deles e já vou normalmente aos programas. Só não sou convidado para o Criança Esperança porque cuido de crianças cearenses, e essas não são lembradas pelo programa. Criança Esperança aqui no Ceará quem faz é a minha fundação, Raimundo Fagner, que atende 300 crianças carentes em Fortaleza e em Orós.

Veja – O que o senhor acha de a gravadora da filha de Elis Regina ter dado iPods para os jornalistas escutarem o novo disco dela?
Fagner – O que aconteceu ali foi que o disco da Maria Rita precisava ser um sucesso a qualquer preço. E, pelo que eu sei, ele não é bom. Daí, para sustentar o furacão de vendas que foi o primeiro disco dela, a gravadora fez esse investimento arriscado. O problema da Maria Rita é que o maior apelo dela é a mãe. A cara é da mãe, a voz é da mãe, os gestos são da mãe. Ela quer negar isso, e não dá. Mas é uma gracinha de menina.

Veja – Entre os filhos de artistas que seguiram o mesmo caminho dos pais, quais o senhor admira?
Fagner – A Luciana Mello, filha do Jair Rodrigues, é fantástica. Ela canta muito bem e é linda. A qualidade vocal da Sandy também é inegável. Ela não é uma Elis, mas é boa. A Sandy está agora numa faixa etária decisiva. Saiu da infância e ainda não sabe para que lado vai, se vai para o romântico, para o pop. Precisa se decidir.

Veja – Sua voz não é clássica. É um pouco rouca e até fanhosa. Tem também um forte sotaque cearense. No começo, ela foi bastante criticada.
Fagner – É. Acho que foi o Maurício Kubrusly, no Jornal da Tarde, que disse que eu tinha voz de taquara rachada. Mas eu não levei como uma ofensa. Foi em 1973, eu havia acabado de gravar o meu primeiro disco, o Manera, Fru Fru, Manera. As pessoas ainda não entendiam a minha voz. Mas isso foi há muito tempo. A Nara Leão dizia que eu tinha empatia com o público. Para ela, meu carisma só se comparava ao do Chico Buarque.

Veja – O senhor não se casou até hoje. Por que optou pela solidão se faz tantas músicas sobre o amor?
Fagner – Eu já tive muitos amores platônicos. E levei fora de três pessoas. Hoje, prefiro ter meu espaço, a cama vazia, minha independência. Mas namoro muito. Se puder, tem namoro todo dia lá em casa.

[DRAWING] Jan2017

editorial (republico)

Reproduzo abaixo o texto de um editorial (sem título) publicado no periódico bimensal brasiliense Música Em Brasília, edição de julho-agosto de 2005. Trata-se de outro artigo guardado em meus arquivos pessoais e julguei interessante repassá-lo aqui, como um tópico de discussão sobre uma das facetas da produção cultural brasileira e a realidade por ela vivida: a música erudita nacional (yes, nós temos uma produção em música erudita – e Carlos Gomes e Villalobos não foram os únicos).


O editorial é da autoria de Bohumil Med, músico clássico (trompista) de origem tcheca, radicado no Brasil desde 1968. No Rio de Janeiro, atuou na Orquestra Sinfônica Brasileira, tendo também dado aulas no Instituto Villa-Lobos. Desde 1974 professor da Universidade de Brasília, inicialmente como trompista, ocupa atualmente a cadeira de professor de Teoria da Música e Percepção Musical. Várias vezes condecorado, publicou quatro livros, com destaque para Teoria da Música.


Vida de Músico não é Fácil é seu último lançamento (2004). (Ver trechos do livro neste link)


Segue o texto do editorial. Como no texto anterior, eventuais links foram por mim acrescentados.

O governo brasileiro está promovendo com pompas e recursos o “Ano do Brasil na França“. Analisando a programação oficial constatamos, com muita tristeza, que a música erudita brasileira foi totalmente alijada. Para os organizadores, o país não tem o que mostrar no exterior. Na concepção deles, não existem valores representativos. Nem compositores, nem intérpretes. O público francês vai pensar que a cultura musical brasileira se restringe, com raras exceções, às mulatas das escolas de samba, à música folclórica e popular. (*)

A imagem que o próprio Brasil projeta no exterior já não é das melhores. Filmes como Cidade de Deus, Carandiru e outros, embora de qualidade, só mostram o lado negativo. As manchetes internacionais, quando se referem ao Brasil, só falam sobre o desmatamento da Amazônia, as favelas, a violência, o tráfico de drogas, a corrupção no governo, o turismo sexual e, caso raro do que é bonito, o futebol brasileiro. E quando há uma oportunidade de mostrar um dos lados cultos e positivos, no qual, sem a menor dúvida, a música erudita brasileira se enquadra, os organizadores a desprezam! Não dá para entender!!

O pior é que essa postura não é exclusividade desse projeto. No Brasil, a música erudita é a prima pobre e praticamente desconhecida da música popular, e seria totalmente ignorada pelos nossos meios de comunicação, não fossem a Rádio Cultura FM 103.3 de São Paulo e a TV Senado, com os programas Artur da Távola, Conversa de Músico e outros poucos. Na mídia impressa, só existem duas publicações de porte que tratam do tema: as revistas Concerto, de São Paulo, e Brasiliana, da Academia Brasileira de Música. Os jornais diários, especialmente em Brasília, dedicam espaço reduzido, quando dedicam!

Pergunta que não quer calar: por que tanto descaso? É um boicote nacional?? A quem se deve essa postura? À política cultural dos governos federal, estadual e municipal? Aos programadores das rádios e TVs? Aos redatores dos jornais e revistas? Aos responsáveis pela liberação das verbas e sua deficiente formação cultural? Ou a todos eles ao mesmo tempo? Alguém imagina uma solução? Por favor, apresente o mais rápido possível. A cultura brasileira agradece.

(*) Em O Selvagem da Ópera (1994), Rubem Fonseca observa que, até o momento da publicação de sua biografia romanceada sobre Carlos Gomes, nenhuma ópera do compositor havia sido encenada na França [nota da blogueira].

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texto: Diogo Mainardi

Naturalmente, este blog não pretende ater-se à mera reprodução de textos. Mas este encontra-se zelosamente guardado em meus arquivos implacáveis (obrigada, Millôr), e reproduzo-o aqui para apreciação geral. Trata-se de uma (crudelíssima) reflexão sobre determinados aspectos da arte brasileira, escrita num tempo em que seu autor, um tal de Diogo Mainardi [UPDATE 25/08/2012: aquele mesmo que declarou que “na internet só tem otário”] – sobre o qual já devem ter ouvido falar, suponho -, ainda não havia atolado-se em certo lodaçal, verdadeira areia movediça da qual parece não mais ter saído desde então. Mas deste texto ainda gosto – apesar de algumas, digamos, omissõezinhas transcorridas na análise em questão.

OBS.: eventuais links no texto foram acrescentados por mim, em um esforço para situar o leitor em alguns aspectos nele apresentados, na medida do possível.

SANTOS RIDÍCULOS
(Revista VEJA, 27/06/01)

“O barroco brasileiro nunca foi arte. É apenas a expressão de uma sociedade retrógrada.

O Brasil trouxe alguns santos e oratórios barrocos para a Bienal de Veneza. As obras ficam expostas até 4 de novembro na Igreja de San Giacomo dall’Orio. Pode parecer estranho que alguém tenha pensado em mostrar santos e oratórios barrocos numa feira internacional de arte contemporânea, mas os organizadores do evento acham necessário contextualizar nossa arte. Ou seja, para compreender a arte contemporânea brasileira, os estrangeiros precisam antes conhecer o que fizemos no passado. O mesmo raciocínio vale para a retrospectiva de arte brasileira que o Museu Guggenheim, de Nova York, marcou para setembro. O ponto de partida para a visita será um altar barroco do século XVIII.

É uma iniciativa suicida, claro. Arte barroca, na Itália, é associada a Bernini e Borromini, à Fontana di Trevi e ao Jardim de Boboli. Trazer nossos santos para cá significa expô-los ao mais absoluto ridículo. O barroco brasileiro nunca foi nem nunca será arte. É artesanato. De fato, o contraste entre os toscos santos brasileiros e a igreja veneziana em que foram colocados é impiedoso. Basta ver os nomes. San Giacomo dall’Orio tem um afresco e um quadro de Veronese. Tem também um quadro de Lorenzo Lotto. Um quadro menor, mas sempre um Lorenzo Lotto. Tem um ciclo completo de Palma, o Jovem. Tem um crucifixo gótico de Paolo Veneziano. Tem um dos mais elaborados tetos de madeira da arquitetura italiana, do século XIII. Os pobrezinhos dos santos brasileiros, desproporcionais, inexpressivos, rudimentares, banais, destoam nesse ambiente elevado.

O problema não é apenas técnico, mas temático, ideológico. Nosso barroco limitou-se a reproduzir, no século XVIII, a iconografia religiosa do século XII, com imagens simplórias de santos e mártires que mostram seus atributos clássicos. Compare-os a uma obra qualquer da Igreja de San Giacomo dall’Orio, como, por exemplo, a Predicação de São João Batista, de Francesco Bassano. Por trás dessa tela, lêem-se comentários eruditos sobre a Reforma, o Concílio de Trento e os pintores protestantes da Alemanha. Arte é informação, interpretação, discussão. [Grifo da blogueira] Nos santos e oratórios brasileiros, não há nada disso. Não é arte. Outra coisa: do Renascimento em diante, a arte passou a ser vista como um impulso individual, enquanto nosso barroco é obra predominantemente de escravos. Como reconhecer impulso individual num escravo? Ele não está só obedecendo às ordens de seu senhor? Existe alguma diferença, para ele, entre entalhar santos ou cortar cana-de-açúcar?

Não quer dizer que esses objetos sejam desprovidos de interesse. Mas o interesse é histórico, não artístico. Os santos e oratórios barrocos são a expressão perfeita da sociedade brasileira da época: escravista, retrógrada, arbitrária, brutal, ignorante. A Companhia das Letras, algum tempo atrás, republicou as Ordenações Filipinas, o código de leis português que vigorou no Brasil de 1603 a 1830, cobrindo todo o período barroco. Os hereges eram queimados vivos. Os escravos eram açoitados no pelourinho. Os livros não podiam ser impressos sem licença do rei. Esse foi o Brasil que criou os santos e oratórios que agora, orgulhosamente, estamos mostrando ao mundo. Uma civilização tão atrasada não pode gerar uma arte avançada. Talvez o discurso valha até hoje. Talvez não seja uma péssima idéia, afinal, expor nossa arte contemporânea ao lado de imagens barrocas.

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