miragem

Também estou farta desse velho discurso sobre “Brasil-País-do-Futuro”, em um disco já gasto de tanto tocar por todas estas décadas afora, arranhado e pulando sempre.

Como as coisas vão, Brasil parece, de fato, fadado a ser o ETERNO “país do futuro” (a culpa, certamente, não é de Stefan Zweig – ele sinceramente acreditava no que via, quando o país era um tanto diferente do que se vê hoje) – onde o futuro se assemelha àquela miragem em um deserto que, sempre que tenta-se alcançar, desaparece.

E nunca sai disso.

Parece maldição.

P.S.: enquanto isso, no eterno “País do Futuro”, o “AMANHÔ já virou peça de museu (mantido com dinheiro público) – LITERALMENTE.


UPDATE 15/12

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“animais políticos” X “bichos do mato”

O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam.
A citação acima, do historiador britânico, inicialmente é daquele tipo de frase que pode ser interpretada ao bel-prazer dos diferentes “grupos de interesse”.
A interpretação apresentada aqui toma o termo “política” não no sentido corriqueiro, banalizado até, tal como vemos – e lemos – nos noticiários, mas atribuindo-lhe um conceito mais abrangente, neste entendendo-se política como uma espécie de arte da convivência, seja em grupos ou na sociedade como um todo.

Desta forma, depreende-se que “o maior castigo para aqueles que não se interessam por política” – isto é, vivendo à margem das coisas e dos fatos, andar na contra-mão dos mesmos, adotando comportamentos chocantes como toda uma, digamos, opção de vida – pagarão o preço, obviamente alto (como demonstrado pelos processos históricos e culturais, através dos tempos), cedo ou tarde sendo suplantados por “aqueles que se interessam”: os “animais políticos”, tão caros a Aristóteles, existentes em VÁRIOS setores (mais do que se pensa) da vida em sociedade, seja em Política, Artes, Cultura ou Economia.

Por outro lado, esta discorrência fez-me lembrar do artigo Egrégora, reproduzido aqui neste blog, no sentido de atribuir ao termo um significado “político” – sendo o o termo “política” tomado no sentido realista, da vida como ela é, da convivência quotidiana entre seres humanos (com seus prós e contras), e não como alguns a idealizam. Por esta razão atribuo, por tabela, um sentido político e ao mesmo tempo IRÔNICO a “Egrégoras” em geral.

Seria, basicamente, um conflito entre “animais políticos” e “bichos do mato” *, onde o “animal político” seria aquele com habilidade para discernir os prós e contras da situação, do momento presente e também a longo prazo… E o “bicho do mato”, o que não vê nem pesa tais fatores (por inabilidade ou por vontade própria).

* aqui contrapondo-se, com fins não menos irônicos, a expressão aristotélica e a popular.

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texto: Diogo Mainardi

Naturalmente, este blog não pretende ater-se à mera reprodução de textos. Mas este encontra-se zelosamente guardado em meus arquivos implacáveis (obrigada, Millôr), e reproduzo-o aqui para apreciação geral. Trata-se de uma (crudelíssima) reflexão sobre determinados aspectos da arte brasileira, escrita num tempo em que seu autor, um tal de Diogo Mainardi [UPDATE 25/08/2012: aquele mesmo que declarou que “na internet só tem otário”] – sobre o qual já devem ter ouvido falar, suponho -, ainda não havia atolado-se em certo lodaçal, verdadeira areia movediça da qual parece não mais ter saído desde então. Mas deste texto ainda gosto – apesar de algumas, digamos, omissõezinhas transcorridas na análise em questão.

OBS.: eventuais links no texto foram acrescentados por mim, em um esforço para situar o leitor em alguns aspectos nele apresentados, na medida do possível.

SANTOS RIDÍCULOS
(Revista VEJA, 27/06/01)“O barroco brasileiro nunca foi arte. É apenas a expressão de uma sociedade retrógrada.

O Brasil trouxe alguns santos e oratórios barrocos para a Bienal de Veneza. As obras ficam expostas até 4 de novembro na Igreja de San Giacomo dall’Orio. Pode parecer estranho que alguém tenha pensado em mostrar santos e oratórios barrocos numa feira internacional de arte contemporânea, mas os organizadores do evento acham necessário contextualizar nossa arte. Ou seja, para compreender a arte contemporânea brasileira, os estrangeiros precisam antes conhecer o que fizemos no passado. O mesmo raciocínio vale para a retrospectiva de arte brasileira que o Museu Guggenheim, de Nova York, marcou para setembro. O ponto de partida para a visita será um altar barroco do século XVIII.

É uma iniciativa suicida, claro. Arte barroca, na Itália, é associada a Bernini e Borromini, à Fontana di Trevi e ao Jardim de Boboli. Trazer nossos santos para cá significa expô-los ao mais absoluto ridículo. O barroco brasileiro nunca foi nem nunca será arte. É artesanato. De fato, o contraste entre os toscos santos brasileiros e a igreja veneziana em que foram colocados é impiedoso. Basta ver os nomes. San Giacomo dall’Orio tem um afresco e um quadro de Veronese. Tem também um quadro de Lorenzo Lotto. Um quadro menor, mas sempre um Lorenzo Lotto. Tem um ciclo completo de Palma, o Jovem. Tem um crucifixo gótico de Paolo Veneziano. Tem um dos mais elaborados tetos de madeira da arquitetura italiana, do século XIII. Os pobrezinhos dos santos brasileiros, desproporcionais, inexpressivos, rudimentares, banais, destoam nesse ambiente elevado.

O problema não é apenas técnico, mas temático, ideológico. Nosso barroco limitou-se a reproduzir, no século XVIII, a iconografia religiosa do século XII, com imagens simplórias de santos e mártires que mostram seus atributos clássicos. Compare-os a uma obra qualquer da Igreja de San Giacomo dall’Orio, como, por exemplo, a Predicação de São João Batista, de Francesco Bassano. Por trás dessa tela, lêem-se comentários eruditos sobre a Reforma, o Concílio de Trento e os pintores protestantes da Alemanha. Arte é informação, interpretação, discussão. [Grifo da blogueira] Nos santos e oratórios brasileiros, não há nada disso. Não é arte. Outra coisa: do Renascimento em diante, a arte passou a ser vista como um impulso individual, enquanto nosso barroco é obra predominantemente de escravos. Como reconhecer impulso individual num escravo? Ele não está só obedecendo às ordens de seu senhor? Existe alguma diferença, para ele, entre entalhar santos ou cortar cana-de-açúcar?

Não quer dizer que esses objetos sejam desprovidos de interesse. Mas o interesse é histórico, não artístico. Os santos e oratórios barrocos são a expressão perfeita da sociedade brasileira da época: escravista, retrógrada, arbitrária, brutal, ignorante. A Companhia das Letras, algum tempo atrás, republicou as Ordenações Filipinas, o código de leis português que vigorou no Brasil de 1603 a 1830, cobrindo todo o período barroco. Os hereges eram queimados vivos. Os escravos eram açoitados no pelourinho. Os livros não podiam ser impressos sem licença do rei. Esse foi o Brasil que criou os santos e oratórios que agora, orgulhosamente, estamos mostrando ao mundo. Uma civilização tão atrasada não pode gerar uma arte avançada. Talvez o discurso valha até hoje. Talvez não seja uma péssima idéia, afinal, expor nossa arte contemporânea ao lado de imagens barrocas.

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