reflexão

Não faço parte dessa estética, digamos, escatológico-forense que tomou conta de determinados segmentos da arte contemporânea. (E os incomodados, que se incomodem – ui!)

Se de um lado pretendo reformular meu próprio relacionamento com a Arte (“puxar uma DR” com a mesma talvez, como dir-se-ia nestes dias e tempos), não significa que eu não tenha o direito de escolher o caminho ou linguagem nos quais me identifique mais.

E, na escolha que faço, sinto mais liberdade para criar e relacionar-me com a vida, as pessoas e a própria arte, refletindo-se a mesma liberdade na disposição para viver.

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Large Hadron Collider

Dando continuidade ao post anterior (sobre o despertar do meu interesse pela Física, após um período de longa hibernação), eis algumas imagens – salvas em fomato PNG, apesar da “cara de Autocad” – obtidas pelo aplicativo LHSee, através do qual pode-se monitorar os eventos do Large Hadron Collider (LHC), o colisor de partículas destinado a desvendar, entre outros aspectos, elementos referentes à própria origem do Universo.

Pelo aplicativo pode-se, entre outras características, “brincar” de procurar o Bóson de Higgs (moderna versão do Santo Graal, talvez?). Por enquanto, LHSee – gratuito – é exclusividade da plataforma Android (até surpreendeu-me que não exista versão para iOS).

Às vezes tenho a impressão de ver no LHC uma reconstituição de algo já discutido em escritos milenares – e não se trata de “viagem na maionese” por esoterismos de boutique, do tipo New Age: falo em sistemas filosóficos.

In search of the #higgsboson

E, para dar o toque musical a este post: as respectivas versões original (em inglês) e em Português do Rap do LHC.

depois da hibernação

Curiosamente, o fato de ter tido apenas maus professores de Física pelos níveis fundamental e médio afora não afastou de todo meu interesse pela área – interesse que pode haver “hibernado” por longos anos, mas jamais enterrado. Tanto que tenho alimentado um incomum interesse pela Física ultimamente, que nem imaginava ter um dia.

E nem maus professores conseguiram impedir.

Se bem que o interesse, além de científico, é também FILOSÓFICO – e não tão discrepante, como possa parecer; haja vista a filosofia grega como matriz de várias ciências que se desenvolveram com o passar dos séculos – somando-se aos enunciados de alguns sistemas filosóficos orientais (nestes, sua VERDADEIRA gênese) mais antigos.

Mas talvez explique isto mais tarde; não agora. Não, não estou esquivando-me de nada: apenas tratando de elaborar as ideias.

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old (modern) fable

WARREN RED CLOUD: Once upon a time, a woman was picking up firewood. She came upon a poisonous snake frozen in the snow. She took the snake home and nursed it back to health. One day the snake bit her on the cheek. As she lay dying, she asked the snake, “Why have you done this to me?” And the snake answered, “Look, bitch, you knew I was a snake.”

[Extracted from Quentin Tarantino’s ‘Natural-born Killers’]

Em bom tupiniquim: QUEM MANDA CRIAR COBRAS?

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revisão

Se, no entendimento comum, “Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor” (como já havia sintetizado John Lennon em “God“), tenho feito esforços em não mais deixar-me levar pela lógica viciada a que esse tipo de reflexão pode conduzir – simplesmente pelo fato de tentar rever a minha própria ideia de Deus, ao invés de “louvá-lo” ou “culpá-lo” por “desejos” satisfeitos ou não.

Enquanto permanecemos agarrados às chamadas armadilhas do ego, Deus é mero “medidor” da nossa dor (ou prazer); libertando-nos de tais armadilhas, Deus é algo que existe dentro de cada um de nós, onde o (des)construímos ou destruímos, conforme nossa capacidade de assimilar experiências negativas ou positivas; CONSTRUIR é a palavra-chave, a meta, o aprendizado.

São palavras de quem está apenas começando, e o caminho é longo.

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felicidade

Parece-me que “felicidade” é um daqueles conceitos em torno dos quais todo cidadão comum puxa a brasa para sua sardinha. Trocando em miúdos: cada qual querendo entender “felicidade” do seu jeito, na acepção egocêntrica da coisa – sim, porque um ranço hedonisticamente egocêntrico é inevitável aí, no entendimento do homem comum… Afinal, TODO MUNDO quer ser “feliz” para o seu lado, não é?

Neste contexto, pode-se começar a entender o que John Lennon certa vez sintetizou, em letra sua: “Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor”. (Se bem que, quanto à “lista” enumerada na letra, com a inclusão de alguns “itens” até concordo, e de outros nem tanto – mas essa já é outra discussão, esta sim dando pano para muita manga… Não obstante a bombástica declaração “THE DREAM IS OVER”, traumatizando meio mundo em verdadeira ressaca pós-sixties)

Porque, enquanto estamos bem (material e pessoalmente, para ser mais exato), não sentimos tanta necessidade de nos voltarmos para as chamadas coisas do espírito. Agora, já quando o “açúcar” falta… Tome reza, choradeira, promessas, novena, terços, autoflagelações, japamalas e quantos métodos as religiões em geral disponibilizarem aos seus desesperados fiéis.

Sob tal contexto portanto, é pertinente o que John Lennon praticamente sintetiza nesta letra, quase como em um haikai… Para a imensa maioria das pessoas de fato, Deus não representa mais do que isso: um “conceito através do qual medimos nossa dor”.

Mas talvez aí o desafio seja o de trancender algo… Rever, remodelar o conceito de “felicidade”, colocando-a além e acima do entendimento do homem comum: não mais entendendo-a como uma mera satisfação dos sentidos, como verdadeira liberação.

Tal processo é uma questão de tempo e de experiência.

Mas afinal, partindo-se da discussão apresentada pelo filósofo britânico John Gray em seu ‘Cachorros de Palha’: o que verdadeiramente se busca, ‘felicidade’ ou ‘salvação’? (E há quem confunda os dois)

Na velha ordem politeísta, tais contorcionismos metafísicos eram irrelevantes.

what seemed to be lost, has been found

Os Artistas Fora da Mídia | The Artist Out of The Media

OBS.: o texto a seguir está devidamente creditado; portanto, não se trata de um daqueles abomináveis apócrifos, com que tanto  enchem a caixa de correio – e o nosso saco, também.

OS ARTISTAS FORA DA MÍDIA

Por Artur da Távola (1936-2008 – advogado, escritor, jornalista e professor). Publicado originalmente no Jornal O DIA, do Rio de Janeiro, em 16/07/1998.
Nunca iluda um artista fora da mídia. Ele é um anjo que se tornou triste. E sobretudo jamais o desiluda. É pecado mortal dizer ou pensar: “Coitado, esse acabou e não sabe”. Não seja piedoso por hipocrisia: ele percebe. Tenha paciência com suas queixas e busque compreender-lhe a arte. Há dois tipos de artista fora da mídia: os muito superiores ao que em cada momento domina o mercado, e os muito inferiores. Um acaba injustamente infeliz, o outro acaba chato. Mas o sonho de ambos é simples e santo: existir, disseminar vivências sensíveis, ter o direito de mostrar quem são.
Vítima do implacável teor seletivo do mercado e seus ávidos especialistas, por justos ou injustos critérios, com ou sem qualidade artística, deixa de vender discos, livros e de atrair público.
Vai para o apartheid da fama. O artista fora da mídia é alma no limbo. Aguarda veredito do Destino com o olhar cavo e machucado de certos cães. Expulso da passarela iluminada, ele amarga injustiças e não entende o que acontece e por que resta esquecido. Espremido entre o orgulho de não pedir e a dor da discriminação, divide-se entre os que se conformam, entristecidos, e os que se fazem ressentidos e descobrem argumentos, justos e injustos, contra os que não os chamam para atuar. Jamais prometa a um fora da mídia o que não poderá fazer. Mais vale um não sincero que um sim impossível de ser cumprido.
Jamais o receba com ar de enfado ou palavras de consolação. Tampouco com esmolas afetivas. Ou lhe dê trabalho ou lhe fale franco. Ele é um ser de sofrida solidão e terna dependência de reconhecimento e carinho. Uiva saudades para as luas imaginárias de suas lembranças. É um tipo de excluído que não está nos manuais dos direitos humanos.
Que Deus dê a todo e toda artista fora da mídia paciência e esperança suficientes para prosseguir. Às vezes o reconhecimento chega depois. Até mesmo quando já não importa.
P.S.: esta crônica é dedicada a Gerdal dos Santos, que em seu programa “Onde Canta o Sabiá” aos domingos de manhã na Rádio Nacional dá calor, carinho e guarida a artistas fora da mídia.

ENGLISH VERSION – an attempt made with a little hand of a good friend, an English teacher [translation by Iracema Brochado]

THE ARTIST OUT OF THE MEDIA

by Artur da Távola (1936-2008 – Brazilian writer, essayist, journalist and professor), first published in O DIA, a Brazilian newspaper from Rio de Janeiro city, on July 16th of 1998.
Never deceive an artist out of the media. They’re an angel that has become sad. And above all, never ever disenchant them. It is a mortal sin uttering or thinking: “Poor fellow, they’re finished and still don’t know it”. Don’t be pitiful by falseness: they perceive so. Be patient with their complaints and try to understand their art. There are two kinds of artist out of the media: the ones way above those who sporadically dominate the market and the second-class ones. The former becomes unfairly unhappy, the latter dull. But the dream of both is simple and pure: to exist, to spread sensitive existences, to have the right to show up who they are.
Victim of the merciless selective purposes of the market and its greedy specialists, guided by either fair or unfair criteria, with artistic quality or not, they quit selling records, books and drawing audiences altogether.
They go into the apartheid of Fame. The artist out of the media is a soul in limbo. They await the sentence of Fate with a hollowed and hurt look of certain dogs. Expelled from the illuminated stage, they withstand injustices and don’t understand what goes on and why they remain forgotten. Wedged between the pride of not begging and the pain of discrimination, they end up being divided between those who get conformed, saddened, and those resentful which find arguments, both fair and unfair, against those who don’t invite them to perform. Never ever promise to an out-of-the-media what you can’t do. More it is worth a sincere NO than a YES impossible of being fulfilled.
Never ever greet them with unpleasant looks or consolation words. Nor with handouts of sympathy. Either just offer work or speak to them frankly. They are beings of suffering solitude and gentle dependence on recognition and care. They howl nostalgias to the imaginary moons of their memories. They’re a kind of outcast not currently listed in Human Rights’ handbooks.
May God give every artist out of the media patience and perseverance enough to carry on. Sometimes recognition arrives later. Even when it doesn’t matter anymore.
P.S.: this article is dedicated to Gerdal dos Santos, who in his program “Onde Canta o Sabiá” [Where the Sabiá Bird Sings], Sunday mornings on Rádio Nacional [a Brazilian radio station from Rio de Janeiro], brings warmth, care and shelter to artists out of the media.

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